Há 800000 anos o Homo Erectus distribuiu-se pela Península Ibérica. Na bacia do Guadiana aparecem vestígios de tribos do Neanderthal com 100000 anos e do Cro-Magnon com 35000 anos.
Muitos autores defendem que a cultura Megalítica se propagou a partir da península, cujo exemplar mais antigo é o menhir do Lavajo nas proximidades de Alcoutim, com 3,14 m de altura e que data do período Neolítico final.
A fixação das tribos primitivas nas margens dos rios deveu-se ao acesso directo à água para a alimentação, para a agricultura, e para a pesca como complemento proteico da caça e da pastorícia. Essas tribos começaram a aproveitar os recursos hídricos muito cedo assim como a navegar.
Os primeiros barcos terão sido troncos de árvores flutuantes aos quais se agarraram, depois fizeram pirogas, e com as mãos primeiro e depois com outros instrumentos aprenderam a impulsioná-las e a utilizar o vento, mais tarde aventuraram-se no mar.
Há 3100 anos, apareceram os primeiros vestígios de fenícios nas regiões costeiras do Sul, provenientes do outro lado do mediterrâneo com navios que chegaram a atingir os 30 metros.
Os estaleiros navais de Sidon e Tiro construíam os melhores navios da época com os famosos cedros do Líbano. Os faraós encomendavam aí barcos e até expedições como circum-navegação da África de Necho II sec VII AC.
Mas já muito antes se sabia que, estes cedros do Líbano tinham servido para a construção da barca de Keops no III milénio AC, hoje exposta no museu das pirâmides, e para as expedições à região do Punt, “Somália” cuja mais famosa foi a da rainha Hatchepsut no XV sec AC, bem documentada no seu grandioso templo funerário.
Tanto os fenícios como mais tarde os gregos, fundaram entrepostos comerciais fortificados de preferência nos abrigados estuários, atingindo por
vezes, a zona superior de influência das marés como Mértola, Castro Marim, a feitoria fenícia de Balsa em Tavira, a feitoria fenícia de Abul no Sado em Alcácer do Sal e o castro Santa Olaia a 3km de Montemor o Velho na foz do Mondego.
Ensinaram aos povos ribeirinhos a metalurgia, a olaria e toda a industria de conserva necessária às suas expedições, que trocavam pelos artefactos e tecnologias do outro lado do mediterrâneo.
Barco comercial fenício, (recriação do autor, a partir dum baixo relevo Egípcio de cerca de 1400 AC, do túmulo de Kenamon em Tebas, que mostra barcos fenícios descarregando num porto Egipcio).
Eles vieram em busca do ouro da Ibéria do cobre e do ferro, cuja idade iniciaram na Península.
Aqui descobriram a força das marés para os impulsionar até zonas abrigadas muito no interior dos rios e próximo dos jazigos minerais que procuravam como Alcoutim e Mértola.
Não podemos deixar de encontrar uma similitude entre fenícios e lusitanos na sua expansão para o mar, uns e outros estavam cercados por civilizações poderosas, os primeiros expandiram o comercio pelo mediterrâneo e os segundos globalizaram-no. Ambos foram grandes marinheiros!
O legado cultural deste período na Península Ibérica deve-se mais aos fenícios, cuja presença foi bastante mais intensa que a grega, e segundo os historiadores Mattoso e Serrão pode dividir-se em 4 áreas fundamentais:
1- A metalurgia do ferro (que muito lentamente se espalha pelas zonas afastadas dos centros fenícios)
2- A olaria (a roda do oleiro e a adopção de técnicas e motivos decorativos pintados)
3- O incremento da exploração dos recursos naturais (mineração, agricultura, vinho, azeite) recursos marinhos e tinturaria (introdução de ânforas)
4- A transformação de ordem social e ideológica (concentração do poder).
Segue-se o período romano entre o sec III AC e IV DC com os romanos a fundarem um império poderoso baseado na sua força bélica e colonizarem grande parte da Europa e todo o Mediterrâneo. O seu poderio naval destrói toda a resistência Fenícia. Constroem pontes e estradas que lhes permitem o acesso rápido a todos os pontos do império e uma força naval armada que protege o intenso comércio marítimo duma pirataria sempre presente.
O Guadiana que serviu de via de penetração fenícia até Mértola é agora uma via romana e acaba por ter um papel importante na estruturação territorial da península Ibérica. Separou as províncias romanas Bética da Luzitânia que com os árabes se chamaram Al Andaluz e Al Gharb e actualmente Andaluzia e Algarve.
A colonização romana aproveitou as potencialidades do rio construindo a barragem de Álamo, “vilas” e estruturas portuárias nas suas margens que sustentavam o comercio com todo o império Mediterrânico.
As invasões germânicas que se seguiram enfraqueceram as defesas locais e abriram as portas para a arabização proveniente do Magreb e que em 3 anos cobriu quase toda a península no século VIII. Depois de 4 séculos de coabitação pacífica inicia-se a reconquista cristã que durou quase 3 séculos, para se concluir em finais do sec XV.
A colonização romana deixou-nos uma rede de estradas, uma cultura e uma lingua o direito romano e o sonho imperial, mas foram os árabes que legaram um avançado conhecimento científico de medicina, cartografia e astronomia que possibilitou os Descobrimentos.
A inspiração cristã, que levou ao fim da coabitação pacífica entre as duas religiões, também norteou os descobrimentos dos dois povos peninsulares que a certa altura partilharam o Mundo nos dois maiores impérios coloniais de sempre.
Tanto o Guadiana como o Guadalquivir “Wadi al Kabir” (grande rio) correm no território que foi pólo de encontro das grandes civilizações mediterrânicas: fenícia, grega, romana e árabe. Quando os gregos aqui chegaram ficaram impressionados com a civilização dos Tartessos que habitava estas terras.
No sec XV são as gentes do Algarve primeiro, e da Andaluzia mais tarde, que partem para a descoberta do caminho da Índia, o novo “Eldorado” como já o tinha sido a Ibéria para os povos da antiguidade.
Os árabes foram um povo de charneira entre o Oriente e o Ocidente, desenvolveram um comercio intenso, levando artefactos e tecnologias de um lado para o outro ao mesmo tempo que desenvolviam no seu seio um conhecimento científico pragmático, menos filosófico que os seus antecessores e mais tecnológico como a química, medicina, astronomia e cartografia e a náutica que lhes permitiu uma supremacia económica no mediterrâneo, e no Índico até à chegada dos portugueses.
Depois de iniciarem os Descobrimentos os portos do Guadiana entram em decadência e Mértola foi o mais penalizado pela sua pouca litoralidade.
Até ao século XIX ainda aportavam no Guadiana navios oceânicos à vela e depois barcos a vapor que faziam carreira fluvial entre Mértola e Vila Real de St. António.
O porto do Pomarão manteve intensa actividade com barcos de transporte de minério até 1965 altura do encerramento das explorações.
A actividade pesqueira está a desaparecer mas há uma crescente navegação de recreio e turística ao longo do rio, sobretudo após a instalação de algumas infra-estruturas portuárias nas povoações ribeirinhas.
Com a grande pressão das empresas turísticas teremos de futuro a vida facilitada.
Talvez Mértola possa voltar a ser um movimentado porto.
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